Plano Real, 15 anos: quando a criatividade e a inovação voltaram a ter sentido
Luiz Alberto de Souza Aranha Machado - Julho 09

Luiz Alberto Machado[1]
Como disse o presidente Fernando Henrique Cardoso em recente entrevista à rádio Jovem Pan, o Plano Real mudou o Brasil, pois até a sua adoção, no dia 1º de julho de 2004, “a economia do País era caótica”.
De fato, a conquista da estabilidade – obtida, afinal, com o Plano Real – significou, na minha avaliação, o terceiro e decisivo fator para a mudança da imagem do Brasil no mundo. Os dois outros fatores, anteriores à conquista da estabilidade, foram a redemocratização, em meados da década de 1980, e a abertura da economia, no início da década de 1990, graças, sobretudo, aos esforços do presidente Fernando Collor.
A manutenção da inflação em níveis estratosféricos era um problema extremamente sério que havia resistido aos pacotes baixados por diversos governos que tentaram, em vão, eliminá-la. A segunda metade da década de 1980, em particular, foi marcada por uma sucessão de planos econômicos, chamados de heterodoxos, que foram verdadeiros fracassos. À medida que os planos se sucediam, a manutenção artificial da inflação em níveis considerados satisfatórios era cada vez mais curta. Como, porém, as causas da inflação não eram corrigidas durante a vigência do tabelamento de preços e do congelamento de salários – responsáveis pela queda artificial da inflação – quando estes eram suspensos, a alta do nível geral de preços voltava, via de regra, com um vigor maior do que o existente antes da adoção do plano. Assim foi com os Planos Cruzado, Cruzado II, Bresser, Verão, Collor I e Collor II.
De quebra, cada um desses “pacotes” alterou as regras do jogo, desrespeitou atos jurídicos perfeitos e passou, para todo o mundo, uma péssima imagem do Brasil, com inúmeras consequências negativas para a nossa economia, em especial o afugentamento de investimentos diretos estrangeiros[2]. O parágrafo que se segue, de um artigo do Prof. Eduardo Giannetti, constitui-se numa fotografia precisa do que era o País na época:
A convivência com a inflação é uma escola de oportunismo, imediatismo e corrupção. A ausência de moeda estável encurta os horizontes do processo decisório, torna ganhos e perdas aleatórios, reforça os conflitos pseudodistributivos, premia o especulador, desestimula a atividade produtiva, promove o individualismo selvagem, inviabiliza o cálculo econômico racional e torna os orçamentos do setor público peças de ficção contábil.[3]
Esse parágrafo reflete bem o horror que era viver num país com essas características, pois a inflação crônica promovia sensível inversão de valores. Suas consequências negativas iam muito além da esfera exclusivamente econômica, uma vez que mexia com questões básicas da convivência civilizada, tais como a falta de solidariedade – cada um só pensava em “levar vantagem em tudo, certo?” -, o esgarçamento do tecido social, a perigosíssima flexibilização dos padrões morais e éticos e a perda completa de referência e de confiança nos indicadores – tínhamos uma inflação de índices de inflação!!! A rigor, havia se criado um tipo de cultura própria, como mostra um excelente texto do Prof. Ricardo Henriques publicado, em 1993, numa coletânea sobre cultura da inflação[4].
A conquista da estabilidade – junto com os outros dois fatores já citados, em especial a abertura da economia, que trouxe de volta a concorrência a diversos segmentos da atividade produtiva – representou ainda a reabilitação de práticas cuja importância havia se reduzido drasticamente, já que o sucesso nos negócios tinha muito pouco a ver com a eficiência empresarial, pois além das reservas de mercado e favorecimentos de toda ordem, muitas empresas disfarçavam com os lucros não operacionais obtidos na ciranda financeira os graves problemas gerenciais que implicavam em baixíssima produtividade. O binômio abertura da economia + estabilidade passou a exigir dos produtores uma preocupação permanente com a criatividade e a inovação, dois elementos essenciais na busca da qualidade e de algum diferencial competitivo.
Por todas essas razões, alinho-me aos que se puseram, irrestritamente, ao lado dos que se empenharam pela manutenção da estabilidade. Lembro, nesse sentido, do diretor do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, Norman Gall, que, certa vez, ao ser questionado sobre o custo social da estabilização respondeu com outra pergunta: “E qual teria sido o custo da não estabilização?”.
Para que o amigo internauta tenha uma noção da mudança que se verificou no Brasil nesses quinze anos, atente para as seguintes comparações: 1ª) De acordo com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a inflação acumulada de julho de 1994 até a terceira semana de junho deste ano foi de 207,69%; já nos quinze anos que vão de 1980 a 1995, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a inflação acumulada foi de 8.071.420.072.698%. 2ª) Um mês antes do surgimento do Plano, em junho de 1994, a inflação medida pelo índice da Fipe foi de 51%; atualmente, ela costuma ser inferior a 0,5% ao mês. Diante de tamanha discrepância, não é difícil entender porque os jovens têm enorme dificuldade para compreender o que era viver num país com uma inflação dessa magnitude.
Concluo meu artigo comemorativo aos quinze anos do Plano Real destacando a relevância dos três instrumentos fundamentais à manutenção da estabilidade – a lei de responsabilidade fiscal, o regime de metas de inflação e o regime de câmbio flutuante – e rendendo minha homenagem aos economistas que tiveram participação mais direta na elaboração do Plano – Pérsio Arida, André Lara Resende e Edmar Bacha.
[1] Economista, é vice-diretor da Faculdade de Economia da FAAP.
[2] O QÜINQÜÊNIO dos pacotes. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, Notas, Nº 5, janeiro de 1991.
[3] GIANNETTI, Eduardo. Ética e inflação. O Estado de S. Paulo, 14 de julho de 1992.
[4] HENRIQUES, R. Economia em rumos sombrios: inflação, ordem e violência. Em VIEIRA, J. R. et al. (Editores) Na corda bamba: doze estudos sobre a cultura da inflação. Rio de Janeiro: Relume & Dumará, 1993.
