A crise e sua lição
Luiz Cláudio Sigaud Ferraz - Agosto 09
No final de 2007 apareceram vários sinais de problemas na economia mundial:
· As demandas por commodities e manufaturados estavam absurdamente aquecidas. Todos projetavam crescimento baseados nas projeções de outros. Um verdadeiro dominó global. Naquele passo haveria escassez ou colapso;
· O aquecimento global (crescimento) era o assunto mais presente em todos os fóruns e mídias. Não havia espaço para outros assuntos que, evidentemente, mereceriam espaço;
· O mercado financeiro experimentava um grau de diversificação e globalização jamais visto. Os derivativos foram se multiplicando como ferramenta de amortecimento para tudo.
No segundo trimestre de 2008 decidi visitar os Estados Unidos para conversar com alguns analistas. Fui para lá na segunda quinzena de Junho.
O que encontrei foi um país “bravo” com o preço do petróleo e com um nível de consumo assustador. A guerra do Iraque, o preço do petróleo e não o consumo dos veículos, as linhas ultra-conservadoras do governo Bush ocupavam completamente a “agenda” americana. Era a fartura completa. Nenhum desafio, nenhum objetivo estratégico, nada!
A locomotiva estava com um piloto automático sem rumo...
Para piorar, os relatórios, análises e visões dos analistas estavam otimistas ou errados a respeito do Brasil, um importante emergente, e parecia se repetir nas análises dos demais “players”. Era como se não houvesse interligação entre as peças do dominó. Aquela situação me fez acender uma luz vermelha.
Deixei os Estados Unidos no dia 03 de Julho e passei a aguardar o pior. Infelizmente minha impressão estava correta e em setembro a bolha estourou!
Este ano retornei aos Estados Unidos. Cheguei lá em 4 de Julho, exatamente um ano depois de minha última visita. O cenário que encontrei mostrou que a “locomotiva” sentiu um duríssimo golpe, mas como sempre acontece nas crises, importantes lições foram aprendidas e mudanças positivas em meio aos números ainda negativos são óbvias:
· Não há mais consumo desenfreado. Este efeito deve permanecer mesmo com a retomada do crescimento pois o americano em geral reconhece que havia exagero. O planeta todo agradece.
· O preço do petróleo está menos da metade de um ano atrás, mas todas as pessoas com quem conversei não falaram disso e sim que uma das maiores prioridades delas é diminuir o consumo de combustível. Aqui um alerta para o Brasil: Já é relevante o número de veículos híbridos (elétrico + combustível líquido) e este modelo de transição é onde os grandes centros produtores estão investindo. O planeta agradece e o Brasil precisa ficar atento.
· O mercado financeiro é hoje acompanhado de maneira completamente diferente. O interesse vai muito além da variação do índice. O planeta agradece e o Brasil tem muito o que ensinar.
· O governo americano tem um plano estratégico para alterar completamente a matriz energética do país bem como reformar os prédios públicos transformando-os em ecologicamente mais corretos. O planeta agradece e o Brasil deveria seguir o exemplo.
· A discussão de criacionismo X evolucionismo nas escolas deu lugar a discussões sobre a qualidade do ensino e sistema de saúde.
Esta foi mais uma dura oportunidade de constatar algo que já experimentei em outras ocasiões:
Um ambiente sem restrições é um péssimo ambiente para mudar, inovar!
Uma crise é uma oportunidade excepcional para você mudar, inovar!
Você não precisa viver uma crise para inovar...
Mas se você quer ter um ambiente inovador e não tem restrições, crie uma!
Luiz Cláudio Sigaud Ferraz
