A Toyota e a inovação
O dicionário Aurélio define a palavra inovação como aquilo que é novo, novidade. Para mim, inovação é muito mais do que isso. Trata-se do processo empresarial em que se busca encontrar, constantemente, uma forma de realizar algo de um modo melhor, sob qualquer aspecto, em relação ao que se estava fazendo anteriormente. Observe que eu utilizei a palavra processo. É preciso haver processos para estimular a inovação.
Inovação tem tudo a ver com eficiência e competitividade. Aliás, quando se inova, busca-se fazer justamente isso. Produzir melhor e com menor custo.
A indústria automobilística, durante muito tempo, foi um segmento que se estagnou. No entanto, as idéias inovadoras implementadas particularmente pelas empresas japonesas trouxeram ao segmento o sopro de ar fresco de que precisavam. Nesse sentido, sem dúvida, a Toyota é um caso relevante a ser estudado.
O que mais chama atenção no caso da Toyota, que é, segundo a Fortune, “a companhia automobilística mais admirada do mundo”, é o fato de constantemente buscar implementar em sua estrutura milhares de idéias criativas, que a transformam numa fábrica de inovação, com o respectivo impacto positivo financeiro, que a tem transformado numa das empresas mais lucrativas do mundo.
O sistema de produção da Toyota, conhecido como lean manufacturing system ou Just in Time System, é uma das maiores contribuições ao mundo empresarial. Esses conceitos foram apresentados ao mundo pela Toyota quando introduziu as idéias: a) jidoka (automação com toque humano), no qual, toda vez que um problema ocorre, para-se o equipamento imediatamente, com o objetivo de prevenir a produção de outros produtos com defeito; e b) just in time, no qual o processo produz somente o que é requerido pelo próximo processo, num fluxo contínuo.
Assim, a Toyota estabeleceu um novo benchmark de produção efetiva e rápida de veículos de alta qualidade, com o objetivo fundamental de satisfazer os clientes. Isso a levou a produzir carros de reconhecida excelência, como o Lexus, Camry, Corolla, Prius, Rav 4, dentre outros.
Como disse acima, inovar é um processo. No caso da Toyota, a liderança que tem obtido no mercado internacional se deve a um movimento constante de novas idéias. Trata-se de uma empresa que busca implementar cerca de 2,500 novas idéias diariamente. O conceito de inovar faz parte do DNA da empresa, em razão do seu histórico, orientação e, principalmente, prática.
A empresa foi fundada por Sakichi Toyoda como uma empresa artesanal. Em 1898, criou a primeira máquina artesanal a vapor. Verifica-se nesses primórdios o DNA que se transformaria nessa grande empresa: a melhor qualidade, o menor custo e a maior facilidade de uso, com muita pesquisa e criatividade.
Para manter-se à frente a Toyota implementou alguns princípios para inovação:
- Engenhosidade
Num cenário cada vez mais competitivo, ser artista e cientista é essencial, pois somente originalidade, iniciativa, criatividade e constante aprimoramento resultam em inovação. As perguntas chave são: “Existe uma forma melhor?” e “Por que não tentar?” Obviamente, existe um custo associado a esse pensamento, mas tudo se trata da maneira como se pretende alocar os recursos da empresa. O constante investimento na inovação é a melhor peça de marketing que a empresa pode produzir no decorrer de sua existência. A Apple é uma prova constante dessa engenhosidade e tem na inovação o seu melhor instrumento de marketing.
O status quo jamais pode ser aceito como inalterável. O conceito de que sempre se fez desse modo ou sempre ganhamos dinheiro desse jeito tem dentro de si a semente da autodestruição da empresa.
Quem já dirigiu um Lexus, Camry ou Rav4 deve ter notado o que a engenhosidade da Toyota fez ao transformar esses veículos em favoritos no mercado mundial. E um Corolla hoje é muitíssimo mais aprimorado que um de 3 anos atrás.
- A Perfeição é Possível?
Custo baixo, risco baixo e alto impacto: essa é a formula da perfeição em qualquer processo para inovar. A perfeição é possível, só que ela deve ser atingida em cada etapa do processo. Lembre-se: o “input” determina o “output”. O que se coloca é o que se retira ao final. Se há falhas no processo, estas devem ser resolvidas, pois o produto final, por melhor acabado que seja, jamais será perfeito se houve falhas em alguma etapa. A perfeição é resultado da excelência, precisão e impecabilidade em cada etapa. Estes são pontos fortes no processo da Toyota, o que a leva a reavaliar processos, produtos e serviços constantemente. Uma falha hoje representa um desastre amanhã.
- Ajuste
Há que se levar em consideração, constantemente, aquilo que o Mercado busca. Estar em sintonia com as necessidades do consumidor final do seu produto ou serviço é o que determinará a sua lucratividade. É por essa razão que buscar ouvir o cliente, em todas as etapas do pós-venda, é essencial. A sua obrigação empresarial não termina na venda do produto ou serviço, mas na constante verificação do nível de satisfação do cliente um, dois, três ou cinco anos depois de adquiri-lo.
Essa perspectiva lhe oferece a compreensão do seu processo passado, como também lhe dá a oportunidade de ouvir o Mercado e entender as modificações necessárias. Foi assim, por exemplo, que a Toyota vislumbrou a mudança requerida pelo consumidor quanto à aquisição de veículos com menor gasto de combustível, menos poluente e menos agressivo ao meio ambiente (a famosa inovação verde), sem sacrificar o espaço interno e a performance do veículo.
A Toyota também adotou algumas metodologias para evitar que a inovação fosse bloqueada, como as famosas tentações para cortar custos, tentar ganhar todas as vezes, criar produtos que são demasiadamente complexos ou com muita perfumaria, sem a real compreensão das necessidades verdadeiras do cliente.
O ambiente empresarial deve propiciar a inovação. Por isso, na análise do processo criativo, devem-se eliminar barreiras que bloqueiem o deslanchar de idéias.
Existem dez práticas para inovação aplicadas na Toyota, que Matthew E. May lista em sua obra: “Elegant Solutions: Breakthrough Thinking the Toyota Way”. O objetivo, segundo ele, é criar na Toyota um ambiente propício à inovação. Aqui vão elas:
1. Deixe o Aprendizado Liderar
“Aprendizado e inovação caminham lado a lado, mas o aprendizado vem primeiro”. A educação e o aprendizado podem levar a inovações substanciais.
2. Aprenda a Ver
Soluções, no geral, vêm dos clientes: saia mais e viva no mundo deles. Desenterre as necessidades latentes dos clientes e perceba as que são emergentes.
3. Desenhe para Hoje
Tenha foco nas necessidades claras e atuais. Somente a inovação voltada aos negócios consegue obter recursos financeiros, e, ao final, êxito.
4. Pense em Gravuras
Torne as suas intenções visuais. Veja a imagem para verificar se vale a pena ou não aquilo que você está criando.
5. Capture o Intangível
As soluções mais relevantes são, geralmente, perceptivas e emocionais. A intuição e habilidade para entender a mente do cliente são cruciais.
6. Controle os Limites
As limitações nos recursos podem, muitas vezes, servir de estímulo à engenhosidade. É importante saber o que você pode entregar, como e quando.
7. Controle a Tensão
Inovação requer tempo. Erros serão incorridos. Controle-se e aceite os erros que ocorrerão. A tensão no ar somente aumentará o desgaste e inibirá o processo criativo.
8. Verifique os Números
Uma boa análise técnica é essencial, antes de iniciar qualquer inovação, levando em conta fatores como risco, probabilidades de êxito e as lições aprendidas em projetos anteriores.
9. Torne o Kaizen Obrigatório
A busca da perfeição exige grande disciplina - crie um padrão, siga-o e encontre uma maneira melhor: trata-se do seu maior desafio no processo de inovação. É preciso rigor.
10. Mantenha-se Simples
A complexidade mata – reduza-a, torne-a simples e deixe fluir. A inovação verdadeiramente só acontece quando você pode simplificar a aplicação pretendida e torná-la tão fácil de usar que ela se torna corrente.
Com esses princípios, a Toyota se transformou num exemplo verdadeiro a ser seguido. Ao estabelecer uma Fábrica de Inovação, tornou-se um grande fabricante mundial e um dos maiores centros de inovação.
Cabe agora a você, leitor, analisar os princípios mencionados acima e verificar a aplicabilidade à sua atividade empresarial. Claro que muitos desses princípios poderão não ser aplicáveis ao seu caso. No entanto, como inovador que você é, adaptará e adicionará novas perspectivas apropriadas ao seu crescimento. Recorde-se das perguntas-chave: “Existe uma forma melhor?” e “Por que não tentar”?
A Toyota já encontrou a fórmula apropriada ao caso dela. E você, já encontrou a sua?
Marcus V. Freitas,
