Formas de olhar o mundo, de ler a escrita da luz...
Fernando Soares de Oliveira - Outubro 09
Afinal de contas, o que é fotografia? Qual a melhor definição da arte de fotografar? É transmitir formas de olhar o mundo, de expressar algo, a magia de registrar a realidade de forma tão real, algo que mudou a percepção do espectador da vida. E como fotografar? Todos nós já lemos ou ouvimos a respeito dos chamados “lambe-lambe”, ou fotógrafos que ficavam nas praças e que ganharam esse nome provavelmente pelo fato de lamberem a chapa, no processo de ferrotipia usado à época. Mas isso já é uma realidade bastante distante, do tempo quando existiam somente fotos em preto e branco e impressas em papel fotográfico, e tudo isso com uma qualidade bastante reduzida comparada com o conhecemos hoje. Há pouco tempo passamos por outro momento importante de transformação na arte de fotografar. Foi quando surgiram as máquinas digitais. Naquele momento usavamos dois termos para descrever uma fotografia, fotografia de papel ou fotografia digital. Esse paradigma já foi quebrado e hoje simplesmente chamamos de fotografia . O termo “digital” já desapareceu como acompanhante insistente de várias manifestações culturais de nosso cotidiano. Hoje dizemos somente música, fotografia ou filme, e não os rotulamos mais de digitais.
A evolução tecnológica transformando a fotografia em informação digital possibilitou o surgimento de novos usos desta informação. Desde a simples edição da imagem, passando pelas novas possibilidades de transmissão dessa informação até a criação de uma infinidade de aplicativos que se utilizam da câmera. Aliás, que câmera é esta que temos agora? Fotográfica, de vídeo, ou multi-uso?
Há pouco tempo nos divertíamos com as possibilidades de edição de imagem. Podia-se mudar quase tudo na imagem registrada ao se corrigir brilho, contraste, alterar cores, apagar imperfeições ou inserir objetos, e o resultado final poderia não ter qualquer semelhança com a realidade inicial. Ou então, criava-se uma nova realidade que passava a existir somente no ambiente digital, virtual, realidade esta que pode influenciar nosso comportamento muito mais do que imaginamos.
Com a convergência juntamos a câmera com comunicação, e uma foto tirada em um determinado local do planeta, ou até mesmo do universo caso o orçamento permita, pode ser visualizada por qualquer pessoa em qualquer lugar poucos segundos depois. As interações humanas são profundamente afetadas por estas inovações na comunicação.
Entretanto, além da edição e da transmissão de fotos de locais ou pessoas, da maneira como estamos mais acostumados a olhar e entender a fotografia, a possibilidade de transformar qualquer imagem em informação digital e transmiti-la rapidamente nos coloca diante de novas realidades. A idéia de colocar uma câmera em um telefone celular é relativamente recente e, mais uma vez como é comum nessa indústria, houve uma evolução sensacional na qualidade deste conjunto nos últimos cinco anos. Este aparelho que cabe no bolso e converge imagem e comunicação passa a ser uma ferramenta incrível que facilita e muito a vida de muita gente.
Vamos a alguns exemplos. Você vive em uma grande cidade e tem uma agenda cheia. Não tem tempo para aguardar determinadas informações ou realizar alguns processos. Com a instalação de um aplicativo bem pequeno, a câmera de seu celular é um poderoso leitor de código de barras, evitando por exemplo a necessidade de digitação de um texto ou que você carregue mais um cartão de visitas de papel, o que inclusive contribue para preservação do meio-ambiente.
Você precisa viajar para a China e, assim como eu, não fala chinês e pouco adiantará matricular-se em um curso relâmpago. Vamos facilitar mais a situação: você recebeu um texto escrito em chinês, japonês ou grego, que poderia ser até mesmo o cardápio de um bom restaurante, e precisa traduzir essa informação. Como fazer isso naquele exato momento e lugar? Seu telefone com uma boa câmera e um aplicativo tradutor é a solução. Focalize o texto e o celular converte a imagem em texto, traduz e mostra na tela de seu celular o texto no idioma que você selecionar.
Com um pouco de imaginação podemos fazer uma analogia e comparar duas situações bem distintas. A possibilidade de ver e não entender, ou seja, estar diante de um idioma que nos é completamente desconhecido, que não nos possibilita fazer absolutamente nada com a informação que vemos, e a possibilidade de não ver. A câmera pode ser uma aliada de grande valor para portadores de deficiência visual. Existem aplicativos que utilizam a câmera para reconhecer objetos e os descreverem de maneira audível para aqueles que não podem enxergá-los. Outro aplicativo interessante é usar a câmera como leitor de Braille, idioma táctil utilizado por aqueles cujos olhos não podem fazer esta função.
Jogos! Diversão! Aqui a câmera também pode ser bem utilizada. Temos vários jogos que utilizam a câmera para inserir a realidade à nossa volta no ambiente de batalhas intergaláticas ou perseguições aos mais terríveis inimigos prestes a destruir o mundo e toda a humanidade. Ou então, uma coisa muito séria. A sua segurança ou a proteção de sua casa na praia. Uma câmera equipada com um aplicativo sensor de movimento pode, por exemplo, tirar uma foto e enviá-la por e-mail ou por mensagem multimídia assim que algo ou alguém invade aquela área.
Além de câmera, caso seu celular também seja equipado com uma antena de GPS, outros usos tornam-se possíveis. Tanto para uso profissional como pessoal e até mesmo lúdico. Tirar uma foto, juntar a essa imagem as coordenadas geográficas de onde ela foi tirada e arquivá-la em um servidor pode ser bastante interessante. Para um profissional de vendas, por exemplo, pode ser um registro de um ponto de venda que precisa ser visitado por alguém de sua equipe. Para um pai orgulhoso dos feitos de seu pequeno filho, pode ser uma maneira de compartilhar com tios e avós os momentos de conquistas preciosas de sua linda criança. Ou então, usar a câmera e o GPS como seu guia turístico de férias. Focalizar o Arco do Triunfo em Paris e visualizar na tela de seu celular várias informações sobre este ponto turístico transforma seu celular em uma fonte rica de informações.
Mais? Fotos tridimensionais, acesso informações de produtos e seus fabricantes, e tantas outras coisas serão cada vez mais comuns em nosso dia-a-dia. E agora? O celular serve mesmo para falar e ouvir? A câmera é mesmo fotográfica? Tudo o que reflete luz pode ser visto pelos nossos olhos. Lemos a escrita da luz. Já a câmera pode ler muito mais. Pode olhar o mundo de outras maneiras, e nos contar histórias bem diferentes.
Fernando Soares é diretor da Nokia Brasil
