Da criatividade à inovação
Solange Wechsler, uma das organizadoras do livro recém lançado que tem o mesmo título deste artigo, tornou-se uma das referências sobre criatividade no Brasil desde o início da década passada, quando publicou o livro Criatividade: descobrindo e encorajando (Campinas, SP: Editorial Psy, 1993).
Naquela época, a criatividade ainda era uma enorme novidade entre nós e muita gente acreditava, inclusive, que se tratava de um dom natural, ou seja, uma característica com que algumas pessoas nasciam e outras não, de tal maneira que a pessoa que não fosse aquinhoada com essa sorte ao nascer estaria condenada a passar a vida toda sem dela fazer uso.
De lá para cá, muita coisa mudou. A criatividade tornou-se muito mais conhecida, diversas linhas de pesquisa sobre o assunto foram desenvolvidas, as empresas e a sociedade de uma forma geral passaram a reconhecer na criatividade um atributo fundamental para a obtenção de vantagem competitiva e o tema passou a freqüentar com assiduidade os mais importantes veículos de comunicação.
Paralelamente, muitos livros foram publicados, tornando o conhecimento do tema, assim como da sua estreita relação com o empreendedorismo e a inovação, muito mais acessível. Muitos desses livros, no entanto, eram traduções e, em consequência, ofereciam exemplos muitas vezes dos países de origem de seus autores, não poucas vezes desvinculados da realidade brasileira.
Este é apenas um dos méritos de Da criatividade à inovação (Campinas, SP: Papirus, 2009), um conjunto de ensaios de autores brasileiros de diferentes áreas de atuação, que não apenas contextualizam o assunto dentro de nossa realidade, mas também mostram como a criatividade pode estar presente em áreas distintas como a psicologia, a administração – pública e privada –, as artes plásticas e o direito.
Trata-se, por tudo isso, de um livro cuja leitura pode agradar pessoas com diferentes interesses, já que vários dos ensaios que o compõem, aprofundam a análise a níveis consideráveis. É, também, um daqueles livros que podem ser lidos por inteiro ou em partes e não necessariamente em sequência, já que o leitor pode ir selecionando os capítulos em função de seu maior ou menor interesse pelo assunto.
Entre os autores dos ensaios, além de Solange Wechsler, há outros nomes que há muito vem se destacando na pesquisa, na consultoria ou na aplicação direta da criatividade e dos processos de solução criativa de problemas em suas respectivas atividades. São os casos específicos de Vera Tindó e Paulo Benetti, assíduos freqüentadores – a exemplo de diversos professores da FAAP – dos encontros anuais promovidos nos Estados Unidos pela Creative Education Foundation e, mais recentemente, dos seminários internacionais organizados em Aracaju pela Fundação Brasil Criativo.
Dos ensaios que chamaram particularmente minha atenção, gostaria de destacar Mediação de conflitos e criatividade: uma parceria necessária, de autoria de Simone Pligher, que focaliza a utilização da criatividade no meio jurídico, e Inovação: um prazeroso desafio, de Guilherme Veríssimo, que depois de uma reflexão sobre a percepção da inovação à luz da teoria schumpeteriana, examina um interessantíssimo caso concreto de uma empresa brasileira do mercado de tecnologia de informação (TI), em que a implantação do processo criativo possibilitou acentuado ganho de produtividade.
Os apaixonados pelas artes plásticas, por sua vez, deverão apreciar especialmente os ensaios O fluir de ideias: o transe criativo em arte e O sentimento de inovação nas artes do século XX e suas implicações na criatividade contemporânea, respectivamente de Regina Lara Silveira Mello e Marcos Rizolli.
Enfim, considerando a afirmação de Bill Shephard destacada em meu último artigo – “pode haver criatividade sem inovação, mas não pode haver inovação sem criatividade” – trata-se de um livro que não pode deixar de ser lido pelos internautas que se interessam pelo Mundo InNova.
Luiz Alberto Machado
