Sexta Set 10

De volta para a garagem: crise, inovação e empreendedorismo

Já é quase um truísmo se referir ao binômio – à primeira vista um oxímoro – crise-oportunidade. Crises sempre embutem elementos de forte mudança, que, por sua vez, criam toda sorte de espaços para introdução de novidades, transformando a economia. E o motor da transformação econômica, especialmente em momentos de crise, é a inovação.

Esta explicação do desenvolvimento econômico centrado na inovação é devida, não somente, mas de maneira decisiva, ao economista Joseph Schumpeter. Schumpeter descreveu a economia capitalista como um processo dinâmico, com ciclos de destruição e criação, em que as inovações criam novos mercados, novos espaços de competição e renovam continuamente as estruturas do sistema econômico. A descrição de Schumpeter do funcionamento da economia traz dois personagens fundamentais: o empreendedor e a tecnologia.

A inovação tecnológica é um caso particular de inovação em que novas tecnologias são aplicadas no desenvolvimento de um produto, processo ou serviço comercial. Este é um caso importante, pois a utilização de novas tecnologias permite, ao fazer avançar a fronteira do que é tecnicamente possível, a criação de novos espaços econômicos e o deslocamento da função produção, gerando ganhos de produtividade e levando à efetiva criação de riqueza.

A tecnologia, que está na origem da inovação tecnológica, é fruto da busca e aplicação do conhecimento técnico. Este conhecimento pode ser de fonte empírica, baseada na experiência, ou de origem formal, baseado no método de pesquisa científico. Durante a história do capitalismo, o conhecimento de base empírica vem perdendo importância em relação ao conhecimento de origem científica. A percepção, já na Segunda Revolução Industrial em meados do Século XIX, de que as inovações baseadas em tecnologias são vitais para o capitalismo, e em especial para a construção de vantagens competitivas para as firmas, tem levado governos e corporações a buscar a sistematização da busca pelo conhecimento tecnológico.

Os sistemas nacionais de ciência e tecnologia e as grandes estruturas de pesquisa e desenvolvimento dentro das firmas foram estruturados nos últimos 150 anos para aumentar a efetividade desta busca. Com origem nos países europeus e nos Estados Unidos, estes sistemas ajudaram estes países a seguirem à frente na corrida pela riqueza, inovando e gerando riquezas.

Um detalhe importante destes sistemas de geração de tecnologias é que eles são dependentes de recursos – com destaque especial para as pessoas. Para fazer a máquina da invenção funcionar é vital que sejam formados, continuamente, recursos humanos nas áreas tecnológicas. Entretanto, nos últimos anos, justamente nesses países que lideram a geração de conhecimento técnico, tem-se visto uma diminuição crescente do interesse dos estudantes pelas carreiras científicas e tecnológicas. Até agora.

Quase que como um sistema de autocorreção, alguns fenômenos interessantes acontecem durante crises econômicas, de maneira a construir o caminho da solução. Um destes fenômenos é exatamente a elasticidade negativa entre desemprego e o interesse por pós-graduação em áreas técnicas – à medida em que as pessoas perdem o emprego, elas voltam para universidade para melhorar sua formação, e as áreas técnicas são privilegiadas por este movimento. Desta forma, é de se esperar que, no bojo da crise, estejam sendo gerados os recursos para, nos anos vindouros, gerarem as invenções essenciais para a economia.

Mas as invenções em si não são o vetor de mudança econômica. Elas precisam se transformar em inovações – novos produtos para novos mercados. E aí é que entra o segundo personagem de Schumpeter: o empreendedor.

O empreendedor é a figura central no processo de mudança econômica, pois é ele que leva ao mercado as invenções, que efetivamente cria valor econômico sobre as novas tecnologias que foram geradas pelo sistema de ciência e tecnologia. E a figura do empreendedor, não por acaso, tem um especial incentivo quando a economia está indo para baixo. Ao perderem o emprego, ou ao não terem perspectiva de um ao saírem das faculdades, muitos jovens, ou não tão jovens, buscam construir seus próprio negócios. São os empreendedores e suas startups.

Agora, ao se acompanhar o momento econômico além das manchetes da crise, já se pode ver a mudança no horizonte. O número de pós-graduandos nas áreas técnicas já está aumentado. E o empreendedorismo começa a aparecer como uma tendência emergente. Ao contrário de um emprego milionário no mercado financeiro, cada vez mais jovens estão buscando novas tecnologias em laboratórios universitários. E daí, estão indo para as garagens para inovar – e mudar o mundo.

Após uma crise desta magnitude – dado que a condição de mudança é estrutural no capitalismo e não uma aberração – a configuração industrial deve emergir de forma muito distinta. Dito de outra forma, quando a economia se recuperar – e isto vai ocorrer – os setores mais importantes e vistosos serão baseados em inovações radicais, geradas em garagens por iconoclastas, principalmente através da introdução de novas tecnologias. Deste movimento de muitos estudantes de exatas inteligentes – e preparados também nas áreas de negócio – surgirá a indústria vencedora da próxima década.

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