Segunda Set 06

Criatividade e inovação: estratégia para implementação

Algumas vezes na condição de consultor – e muitas outras como observador – tive oportunidade de ver empresas bem intencionadas desperdiçarem volumes consideráveis de recursos por não adotarem determinadas providências na tentativa de conscientizarem seus colaboradores para a importância da criatividade e da inovação.

 

Um dos problemas mais comuns nesse sentido diz respeito à não observância da seqüência mais recomendada para tais situações, que pode ser resumida em:

 

1º - Estabelecer um senso de propósito e de urgência;

2º - Criar um ambiente seguro; e, por fim,

3º - Convidar as pessoas a fazerem algo diferente.

 

Por que essa seqüência?

 

Vamos ao primeiro passo, “estabelecer um senso de propósito e urgência”. Tratam-se, na verdade, de duas coisas. A primeira consiste em conscientizar a pessoa sobre a importância da criatividade e da inovação para si mesma e para os objetivos mais amplos da empresa ou organização a que ela pertence. Como criatividade não é dom, magia, mistério ou loucura, mas algo que precisa ser aprendido e desenvolvido, essa conscientização pode passar por um processo mais ou menos duradouro, envolvendo inclusive a participação em cursos, seminários, workshops etc.

 

Uma vez a pessoa estando consciente da importância da criatividade, a etapa seguinte consiste em definir prazos para a realização de tarefas, o que pode parecer estranho à primeira vista, uma vez que esse fator é apontado freqüentemente como causador de bloqueios ao desenvolvimento da criatividade. Sem querer negar essa possibilidade, o fato é que vivemos num mundo onde as pessoas, as empresas e as organizações têm que respeitar prazos o tempo todo, gostem ou não. Portanto, saber administrar o tempo, impedindo que o mesmo se transforme em fator bloqueador é fundamental para desenvolver a criatividade e, por extensão, a inovação.

 

Um ótimo exemplo disso pode ser encontrado o excelente livro Cirque du Soleil: a reinvenção do espetáculo[1], como se observa no trecho que se segue:

 

- Ah, temos prazos e orçamentos, sim, e como! Sem eles, creio que não teríamos nem metade da nossa criatividade. São eles que nos obrigam a criar soluções que do contrário jamais nos ocorreriam. É incrível a capacidade de motivação que os limites de tempo, dinheiro e recursos podem ter. Algumas das nossas idéias mais inspiradas surgiram das mais espartanas situações.

 

Noutro trecho, mais adiante, a questão da pressão exercida pelo fator tempo, volta a ser abordada no seguinte diálogo:

 

- E como vocês transformam essas idéias aleatórias num número?

 

- Com prazos! Claro que eles sempre são apertados, mas, sem eles, a mente perde o foco. O prazo, por outro lado, faz com que a mente, em pânico, comece a produzir idéias malucas que nunca viriam à tona de outro modo. Se você tem dois dias para criar uma transição de um número de trapézio para o trampolim, você vai pensar em algo!

 

- A maioria das pessoas detesta prazos. Nunca parei para pensar que uma limitação pudesse ser algo positivo.

 

De fato, vivemos num mundo caracterizado por intensa e acirrada competição, em que, gostemos ou não, as coisas têm prazo para ser feitas. Portanto, mais do que ficar lamentando, é fundamental que cada um de nós aprenda a conviver com isso, administrando o tempo de forma adequada e sabendo controlar o stress decorrente da pressão exercida pela exigüidade de tempo, companheira cada vez mais freqüente do nosso cotidiano. 

 

Conscientizadas as pessoas e definidos os prazos, chegamos ao segundo passo da estratégia para implementação da criatividade: “criar um ambiente seguro”.

 

Os manuais e livros-texto sobre criatividade costumam se referir às quatro dimensões da criatividade: a dimensão pessoa, a dimensão produto, a dimensão processo e a dimensão ambiente. Esta última diz respeito à necessidade de existir um ambiente favorável ao desenvolvimento da criatividade, um ambiente que seja descontraído, alegre, estimulante, capaz de colocar as pessoas em alto astral.

 

O contrário, ou seja, um ambiente opressivo, pesado, constrangedor, gera um tipo de pressão negativa que tem o condão de funcionar como uma espécie de bloqueio ao potencial criativo que qualquer pessoa possui.

 

De nada adianta fazer esforços e investimentos no sentido de desenvolver as outras três dimensões da criatividade, em especial a dimensão pessoa, se não forem feitas mudanças no ambiente da empresa no sentido de torná-lo compatível com o que as pessoas precisam para se sentir encorajadas a fazer algo diferente, fora dos padrões, o que exige a capacidade de assumir riscos.

 

Ora, como todos nós sabemos, o ser humano resiste a tudo aquilo que é estranho ou desconhecido, razão pela qual comportamentos, processos ou produtos com essas características costumam provocar elevado grau de resistência para serem aceitos. Sendo assim, dificilmente será possível esperar de qualquer pessoa uma atitude criativa se ela não sentir que está num ambiente seguro e que eventuais problemas decorrentes de uma ação diferente serão aceitos como algo normal numa situação dessa natureza. Como mencionei no início deste artigo, diversas empresas desperdiçaram volumes consideráveis de recursos contratando consultores especializados para implementar programas de desenvolvimento da criatividade e inovação, sem, porém, promoverem alterações nos ambientes físico e organizacional. Dessa forma, por não perceberem coerência entre o discurso da alta direção e o clima prevalecente na empresa, seus colaboradores não sentiam a confiança necessária para se arriscarem a fazer coisas diferentemente do que sempre haviam feito.

 

Conscientizadas da importância da criatividade, tendo um prazo a cumprir e, além disso, sentindo-se seguras, as pessoas estarão preparadas para o terceiro passo estratégico: “serem convidadas a fazer algo diferente”.

 

Não pensem que é fácil. Para fazer algo diferentemente do que sempre fizeram, as pessoas têm, necessariamente, que assumir riscos, saindo da zona de conforto que cada um de nós busca incessante e inconscientemente, já que essa é uma atitude natural do ser humano, para a qual contribui o próprio condicionamento do nosso cérebro, neste caso fortemente influenciado pela ação do sistema reptiliano, responsável pelo funcionamento das funções relacionadas à sobrevivência, como a respiração e o batimento cardíaco, por exemplo, e pelo acionamento dos nossos instintos e das nossas defesas. O sistema reptiliano é bastante poderoso e, em razão disso, nosso cérebro é, de certa forma, programado para a rotina e a mesmice, e não para a diferença e a criatividade.

 

Portanto, desenvolver a criatividade, matéria-prima básica para a inovação, não é uma tarefa fácil. Mas, se a seqüência apontada neste artigo for seguida, essa tarefa terá, seguramente, maior chance de ser bem sucedida.

 



[1] HEWARD, Lyn e BACON, John U. Cirque du Soleil: a reinvenção do espetáculo. Tradução de Cristiana Serra.Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.



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