Revolução Industrial, Crise e Energia: um momento único para o Brasil
Poucos temas estiveram tão em voga nos últimos anos do que a questão energética. Ligada a uma miríade de eventos recentes – de disputas geopolíticas à mudança climática –, esta questão tem sido apresentada como de importância ímpar para o futuro da humanidade. Dado este entendimento, é digno de nota o quanto a questão energética está ligada a mudanças sociais mais amplas, e o enorme papel da inovação tecnológica na trama. E, em um momento de crise como o presente, as oportunidades se avolumam, com um especial destaque para o Brasil.
Para entender um pouco melhor o tema, vale a pena olhar de perto sua origem e história. O mundo que se convencionou chamar de moderno surgiu na esteira de vários eventos significativos acontecidos entre os séculos XVII e XIX, com um especial destaque para o surgimento do capitalismo. Dentre as transformações que ocorreram neste novo modelo de organização da produção através da constituição de firmas, foi a institucionalização da ciência e da tecnologia que mais impacto causou na capacidade inovadora das empresas. Mais do que um motor da competição entre firmas, a inovação tecnológica tem alimentado o processo de mudança social nestes últimos séculos, especialmente através do fenômeno da revolução industrial, em que a conjunção de algumas inovações tecnológicas muda completamente a forma como a sociedade se organiza.
Uma característica interessante das revoluções industriais que deve ser observada é precisamente a ocorrência de uma conjunção de mudanças técnicas, de uma multiplicidade de inovações concomitantes ocorrendo em seu bojo, e conformando, muitas vezes, um fenômeno amplo de mudança econômica e transformação social. Pense nas mudanças trazidas pela introdução do automóvel, da siderurgia, da luz elétrica ou mesmo do plástico, para se ter uma idéia do poder transformador da inovação.
Com base em uma análise histórica, alguns pesquisadores (especialmente David Landes de Harvard e Tamás Szmrecsányi da Unicamp) categorizaram as inovações tecnológicas que constituem as revoluções industriais. Estas categorias são:
1. Novos modelos de fabricação, transformação e distribuição;
2. Novas matérias primas;
3. Novos regimes energéticos;
4. Novos produtos ou serviços;
5. Novos mercados, antes inacessíveis ou inexplorados;
6. Novas formas de organização econômica.
É notável o fato de que o Século XX assistiu a mudanças vertiginosas relacionadas a todas estas categorias de inovação tecnológica, com exceção do regime energético. Apesar da emergência de formas alternativas de energia durante os últimos cem anos – desde a nuclear à solar – é inescapável notar que a matriz energética ainda é fortemente baseada em combustíveis de origem fóssil. Desta forma, há uma crescente pressão pela introdução de novas tecnologias de energia, efetivando uma mudança técnica.
Esta pressão é hoje colocada não só pelas demandas produtivas por eficiência, mas essencialmente por questões ambientais, como poluição e emissão de CO2, e de recursos – um dia, distante ou não, o petróleo irá acabar.
Uma questão chave para entender a manutenção da atual matriz energética é a sua pervasividade. O modelo energético vigente está de tal forma ligado ao dia-a-dia das pessoas e das empresas que os custos de transição muito altos, especialmente devido à extensão e capilaridade da infra-estrutura instalada.
A motivação para buscar alternativas esteve em alta durante o ano passado devido principalmente ao preço do petróleo e as já citadas questões ambientais. Entretanto, a queda da atividade econômica global ocorrida na crise atual acabou por reduzir o preço do petróleo, diminuindo desta forma a atratividade das fontes energéticas alternativas.
Mas esta relação de custo não deve ser vista de maneira tão crua. Há um outro lado da crise econômica que deve ser observado com atenção. Um fenômeno importante que ocorre em uma crise profunda – como a atual parece ser – é derrubar várias das barreiras competitivas existentes, criando trincas nas estruturas de mercados estabelecidos. Isto ocorre em diversas instâncias da organização industrial.
Por exemplo, o desaparecimento em larga escala de empregos nas grandes empresas fomenta o surgimento de pequenos empreendimentos, que emergem com espírito inovador e menos presos a paradigmas tecnológicos dominantes. Um outro caso interessante é que uma crise traz profundos impactos sociais, transformando as prioridades e interesses das pessoas, alterando assim os padrões de consumo. Vale ressaltar também que a crise torna as grandes corporações mais conservadoras e menos propensas a experimentar soluções fora de sua zona de conforto.
Por fim, é interessante notar que, no caso da energia, este fenômeno de ampla escala traz algumas importantes oportunidades para o Brasil. O país já apresenta diversas vantagens competitivas – estruturais e comparativas – na produção de energia com uso de fontes alternativas. Mas é preciso dar um salto à frente. Para isto, é crítico para o Brasil fomentar o empreendedorismo de base tecnológica, buscando consolidar as vantagens frente à outras nações através da constituição de firmas dinâmicas e inovadoras. O momento é único. Abre-se assim uma janela de oportunidade histórica para o Brasil colocar-se no centro da mais importante mudança técnica das últimas décadas.
