Segunda Set 06

Sustentabilidade: eficiência de recursos

Júlia Menezes Profeta - Fevereiro 09

Avaliação do Usuário: / 0
PiorMelhor 

Em momentos de crise, como o que passamos atualmente, os primeiros reflexos que impactam a sociedade são os cortes de gastos com as demissões aos milhares. Na última semana de janeiro, gigantes como Sony e Philips anunciaram 16 mil e 6 mil respectivamente. Google fecha suas portas em Austin. 43% das corporações brasileiras preveêm demissões em 2009, FIESP anuncia o maior fechamento de vagas em dezembro de 2008 da série histórica desde 1994.

Só empresas de TI, em janeiro, dispensaram 50 mil. Manchetes encontradas: SAP anuncia resultados e corte de 3 mil, Ericsson anuncia corte de 5 mil, Dell Irlanda planeja corte de 1,9 mil, Lenovo anuncia corte de 2,5 mil, Microsoft anuncia 5 mil demissões, IBM cortou mais de 3 mil... Sem mencionar os cortes de pessoal de instituições financeiras no mundo todo e da indústria automobilística que chocaram a todos no fim de 2008. Mas será esse o melhor caminho para tentar desviar da crise? Mais desempregados significa menos poder de compra na sociedade e consequentemente um desaquecimento ainda maior da economia. Uma espiral descendente sem grandes perspectivas de rápida estabilização.Buscando outra saída, trago aqui a discussão da redução de custos e riscos sob outras perspectivas e o empenho pela eficiência dos recursos. É fato que podia se observar um super aquecimento da economia e um descolamento dos preços reais frente aos preços justos, e que as empresas sofreram um inchaço, necessitando agora rever seus números, planejamentos de produção e financeiros. Contudo, é importante olhar além.  

Relembrando os quatro quadrantes sugeridos por Stuart Hart para tratar da sustentabilidade como geradora de valor ao acionista, abordaremos o quadrante inferior esquerdo que olha justamente para dentro da organização no dia de hoje.  A industrialização trouxe consigo diversos efeitos, sendo muitos deles negativos. O objetivo era a maximazação dos fatores naquele momento, e vimos um início que deixou as cidades cinzas de poluição. A fauna dos rios que por ali passavam sendo exterminadas, novas doenças respiratórias surgindo... clima e biodiversidade profundamente afetados. Consumo desenfreado de matérias primas, extração predatória, consumo crescente de combustíveis fósseis. Simplesmente, um modelo insustentável, destrutivo.

Como essas medidas são muitas vezes as mais baratas no curto prazo, muitas empresas continuam adotando-as e contribuindo para a degradação do planeta. Nos deparamos assim com uma oportunidade imensa de gerar aumento nos lucros e reduzir os riscos do negócio através do combate à poluição, por exemplo. Como aborda Stuart Hart, o combate à poluição está diretamente ligado à melhoria da eficiência ambiental dos produtos e processos. Essa melhoria e eficiência se traduzem em uma menor utilização de insumos e otimização dos processos para menores emissões de poluentes ou desperdícios na produção. Isso é impactado diretamente no fluxo de caixa da empresa com menos custos de matérias primas e depósitos de resíduos. Investimentos em inovação de produtos e processos, treinamento para desenvolvimento do potencial dos colaboradores internos rumo às melhorias contínuas e qualidade total, são investimentos pequenos frente a muitas outras ações, trazem resultados eficazes e retornos crescentes. A adoção de princípios da qualidade total, a obtenção dos ISOs (principalmente o ISO 14.000 voltado para gestão do meio ambiente) são fatores que também contribuem para a diminuição da percepção de risco dos acionistas, sociedade e demais stakeholders.

Para tornar o assunto mais real, lembremos do caso da 3M com seu programa pioneiro “Combate à Poluição Compensa” (3P). Entre 1975 e 1990 a redução de poluição total foi algo em torno de 530mil toneladas, que equivalia a 50% no total de emissões. A economia foi de quase US$500 milhões através da diminuição de custos de matéria-prima, conformidades, eliminação de lixo e passivos legais (entenda-se aqui multas, por exemplo). Mas isso não foi tudo. Em 1990 foi implantado o 3M+, programa que objetivava reduzir os resíduos e emissões que ainda persistiam em 90%, buscando realmente eliminar a emissão de poluição. Muitos estudos e trabalhos comprovam empiricamente que o combate à poluição e as estratégias de redução de resíduos realmente reduzem custos e elevam os lucros. Lembrando que esses programas devem contemplar um conjunto de habilidades e capacitações para que sejam efetivos, como por exemplo envolvimento dos colaboradores e foco em melhorias contínuas. A própria Bosch é um ótimo exemplo, com foco tanto no desenvolvimento de tecnologias sustentáveis, como também em processos eficientes, no desenvolvimento e engajamento dos colaboradores internos e envolvimento da cadeia de suprimento em torno das diretrizes de responsabilidade social empresarial deixadas por seu fundador. Algumas de suas práticas são citadas no caso de fevereiro da Mundo InNova e podem ser encontradas no Balanço Social da empresa publicado no site.

(1) Ao final do artigo cito alguns trabalhos interessantes.(2) Assim, deixo aqui o desafio para que os seus paradigmas sejam mais uma vez revistos e quebrados, se for o caso. Que neste momento de redução de orçamentos (empresariais e pessoais), a busca pela eficiência dos recursos, redução da poluição e desperdícios sejam os primeiros tópicos da lista a serem considerados. Deixe as luzes menos tempo ligadas, delisgue eletrônicos quando não estiverem sendo usados, feche as torneiras, não consuma papel à toa. E fomente a inovação para novos produtos e processos que agreguem valor à sua empresa e à sociedade.  --- Júlia Menezes Profeta

(1) http://www.bosch.com.br/br/responsabilidade_social/ (2)Ver, por exemplo, Christmann, P. Effects of ‘best practices’ of  environmental management on cost advantage: the role of complementary assets. Academy of Management Journal, v. 43, n. 4, p. 663-80, 1998; e Sharma, S. e Vredenburg, H. Proactive corporate environmental strategy and the development of competitively valuable organizational capabilities. Strategic Management Journal, v. 19, n. 8, p. 729-53, 1998.

RSS

Coloque seu e-mail: